segunda-feira, 2 de maio de 2011

Artigo: "Prevenir ou remediar" (02/05/2011)

Li, algum tempo atrás, e por isso me perdoem se os números não forem exatos, que entre 2004 e 2010 o país usou R$ 500 mil em projetos de prevenção às catástrofes naturais. Neste mesmo período gastou quase R$ 5 bilhões para lidar com as conseqüências das intempéries. O texto alertava para a importância de ações preventivas, mais seguras e econômicas, já que no Brasil não há terremotos, vulcões ou nevascas, mas chuvas intensas, em distintos períodos, em diferentes lugares.
Lembrei deste texto, lido de forma aleatória em alguma revista, durante esta semana, enquanto contabilizávamos os prejuízos causados pelo temporal do feriado de Páscoa. Enquanto calculávamos, em Montenegro, o montante que será necessário para recuperar o que chuvarada estragou.
Sei que muito já se falou sobre a enxurrada da sexta-feira Santa. Foi até notícia em rede nacional. Sei também que não faltou empenho para socorrer as pessoas atingidas. Que o trabalho ágil e dedicado, de servidores públicos e voluntários, evitaram que houvesse vítimas fatais. Que a solidariedade dos montenegrinos, mais uma vez, esteve presente. Na hora da chuva e depois dela.
Este momento de desespero e infortúnio, além de expor nossa fragilidade diante da natureza, também nos propicia oportunidade para repensar sobre o que estamos fazendo com o meio ambiente e, mais ainda, no que deixamos de fazer para prevenir tamanho estrago. Será que se houvesse investimento de um milhão em ações preventivas, precisaríamos os 13 milhões – estimado pela prefeitura – para reconstruir o que foi danificado?
Mais do que barrancos sem contenção, galerias entupidas ou estradas precárias é a ocupação desorganizada e ilegal que causa as piores conseqüências numa enxurrada. O poder público precisa intervir, até porque é a ele que recorrem famílias e comunidades quando são atingidas por calamidades. O preço pago pela omissão – no caso de ocupações irregulares – é infinitamente maior do que o custo com a remoção.
Aliás, tenho convicção de que a desocupação das áreas de risco deve ser tratada como política pública. Com etapas e metas. Ações e resultados. Não pode ser encarada como ação ou programa de governo. Governos passam, mas o perigo das habitações irregulares não. Só tendem a aumentar.
Temos de mapear áreas de risco e retirar delas os moradores. Mesmo que seja uma medida antipática ou que haja resistência. Além disso, tomar providências para que os locais não sejam ocupados novamente. Porém, transferir famílias das áreas de risco não significa somente imputar-lhes outro endereço. É preciso dar-lhes infra-estrutura e apoio público. Mostrar-lhes que têm o mesmo padrão e tratamento que o restante da cidade.
A chuva não se pode conter, apesar de prever. A influência e conseqüência dela, entretanto, dependem do quanto planejamos e investimos na conscientização, prevenção e urbanização.

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