segunda-feira, 21 de junho de 2010

Artigo: "A cidade do poema" (21/06/2010)

Quando iniciei a preparação desta coluna – quase que escrevi concentração, por causa da overdose de futebol dos últimos dias - fui interrompido pelo meu filho Bernardo, de 8 anos. Ávido pela escrita, não é raro ele externar seus pensamentos com papel e caneta. Seguidamente recebo dele sugestões de temas para os artigos. Desta vez apresentou-me um poema.
Nas rimas de quem está descobrindo as palavras e com a ingenuidade de uma criança, que certamente não entende porque as coisas estão assim, mas sabe que podia ser diferente e melhor, meu filho fala da cidade, da falta de limpeza e da vontade de morar num lugar limpo e bonito. Obrigou-me a deixar o raciocínio inicial de lado e refletir. Quando foi mesmo a última vez que admirei o asseio de Montenegro? Como a cidade ganhou este aspecto sujo e desleixado? Quando foi que deixei de me importar com isso? Por que uma criança olha ao redor e vê uma cidade feia?
Relendo os versos infantis percebo que para ele, que nada entende de orçamento para capina e varrição, PIB, êxodo rural, inchaço urbano, planejamento ou licitação, o que importa é andar por ruas sem buracos e por calçadas inteiras e limpas. Ter uma cidade arborizada, florida. De preferência ensolarada e colorida. Lixeiras sendo usadas. Praças e parques em condições.
Não é difícil criar (ou resgatar) este cenário desejado pelo Bernardo. Mas para isso, é necessário que tiremos a indiferença do nosso cotidiano. Que nos preocupemos com a paisagem e cuidemos da nossa casa, da nossa rua e do nosso bairro. Precisamos recuperar e trazer à tona nosso orgulho e auto-estima.
Muitos devem estar perguntando se isto será possível com tantas obras demoradas, inacabadas ou mal feitas, tantos problemas urbanos e as inúmeras aberrações relativas à ocupação do solo. Acredito que sim. Como? Cada um fazendo sua parte. Poder público e cidadãos. Uma cidade limpa e bonita precisa da participação, do comprometimento e do cuidado de todos.
Gostamos de reclamar da falta de investimentos em infra-estrutura (ato legítimo, sem dúvida) e muitas vezes imputamos aos outros toda responsabilidade. Como se não tivéssemos deveres, continuamos jogando o papel de bala no chão. Não consertamos a calçada, não aparamos a grama. Depredamos bancos, arrancamos flores. Ignoramos o que diz o Código de Obras e de Posturas.
Enfim, esquecemos que a beleza e a limpeza dependem também de pequenos gestos. Da minha atitude e da disposição de cada um para começar e mudar. É simples, mas enorme em importância, assim como a mensagem trazida pelo poema do Bernardo.

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